Um controverso cenário político e empresarial se desenha na administração do prefeito Plínio Cruz, em Tabatinga, no interior do Amazonas. Em um período inferior a um ano, a prefeitura municipal celebrou acordos milionários que totalizam mais de R$ 21 milhões com a TMN Engenharia EIRELI, empresa controlada por Thiago Moreno Nunes, um empresário com histórico de investigações federais.
Os registros de contratos firmados destacam uma concentração incomum de recursos públicos na companhia. No primeiro semestre de 2025, a TMN Engenharia garantiu três contratos que, juntos, somam R$ 11.837.939,55. Entre as obras contempladas estão a construção de um ginásio coberto (R$ 5,49 milhões), a reforma da Escola Indígena Ewaré Mowatcha e sua quadra no distrito de Belém do Solimões (R$ 1,34 milhão), e a edificação da segunda fase do Complexo Administrativo de Tabatinga (R$ 5 milhões).
A relação comercial se intensificou em setembro de 2025, quando novos contratos de pavimentação asfáltica foram publicados, totalizando R$ 11.805.861,20. Deste montante, a TMN Engenharia foi a maior beneficiária, recebendo R$ 9.524.885,50. Um fato que levanta suspeitas é a ausência de especificação sobre as vias que seriam asfaltadas, assim como o cronograma de execução das melhorias, indicando uma falta de publicidade dos atos.
O proprietário da TMN, Thiago Moreno Nunes, é uma figura já conhecida pelas autoridades federais. Ele esteve sob a mira da Operação Magüta da Polícia Federal, deflagrada em 2021, que apurava um alegado esquema de desvio de verbas destinadas à área de educação em Tabatinga. Na ocasião, o empresário e outros indivíduos eram suspeitos de cometer ilícitos como peculato, fraude em licitação e lavagem de dinheiro.
Apesar desse histórico, a empresa manteve sua aptidão para participar de certames municipais, tornando-se uma das principais parceiras do atual governo. Fontes locais apontam, ainda, uma suposta ligação política e apoio eleitoral entre Moreno e o prefeito Plínio Cruz, o que suscita questionamentos sobre a transparência dos processos licitatórios.
Ademais, os contratos com a TMN Engenharia foram objeto de acréscimos pecuniários consideráveis, superando em alguns casos o teto de 20% do valor inicial previsto na Lei de Licitações. A elevada centralização de investimentos em uma única empresa, especialmente uma sob inquérito, sugere possível favorecimento e aponta para fragilidades nos mecanismos de fiscalização da administração pública local.
No que tange à obra de pavimentação, o contrato de mais de R$ 9 milhões é taxado como “fantasma”, pois a prefeitura não detalhou as ruas que seriam beneficiadas. Uma consulta ao Portal da Transparência de Tabatinga não apresenta informações cruciais como medições, etapas de serviço ou relatórios de monitoramento, o que claramente viola o princípio constitucional da publicidade.
O Ministério Público Federal (MPF) e o Tribunal de Contas do Estado (TCE-AM) ainda não emitiram declarações sobre as contratações mais recentes. No entanto, o volume de dinheiro público e o histórico do empresário podem impulsionar novas investigações sobre possíveis desvios, superfaturamentos ou direcionamento de verbas, pondo em xeque a utilização dos recursos destinados à população de Tabatinga.



