A capital amazonense, Manaus, deu um passo pioneiro no Brasil ao lançar o projeto da Bolsa de Créditos de Carbono da Amazônia, com o apoio estratégico do Banco Mundial. A iniciativa ambiciosa não só visa monetizar o vasto potencial de conservação da cidade, que possui uma das maiores áreas preservadas entre as capitais brasileiras, mas também aspira a transformar Manaus em um verdadeiro hub climático do Hemisfério Sul.
O objetivo financeiro é audacioso: captar até US$ 500 milhões até 2028. O montante, segundo o prefeito David Almeida, será alcançado dada a extensão da área preservada e as ações de sustentabilidade em curso. Este projeto inovador busca conectar diretamente os esforços de preservação amazônica com o mercado global de finanças verdes.
A estruturação da Bolsa é parte integrante do Plano Municipal de Bioeconomia, que tem lançamento previsto para 2026. Este plano englobará diversas frentes de ação, como reflorestamento, projetos de saneamento básico, iniciativas de reciclagem, promoção de eficiência energética e o desenvolvimento de uma mobilidade urbana de baixo carbono.
Para especialistas, como Danilo Egle, consultor da Nature Finance, o movimento é crucial para o reposicionamento global da Amazônia, transformando Manaus em uma referência de governança climática mundial.
Tecnologia e Justiça Social no Coração do Projeto
O projeto transcende a captação de recursos. Há um forte investimento em tecnologia de monitoramento, com 11 estações climáticas e o uso de drones avançados. Essa infraestrutura tecnológica permite o acompanhamento de queimadas e eventos climáticos extremos, o que, segundo a prefeitura, já resultou em uma redução próxima de zero no número de queimadas urbanas, um avanço significativo comparado a anos anteriores.
Além disso, a iniciativa carrega uma importante vertente social: a titulação de terras. A regularização fundiária é vista como um ato de justiça social que integra as comunidades na economia verde, permitindo que a floresta em pé se torne uma fonte de renda sustentável.
Desafios e o Cenário Regulatório Nacional
Apesar do otimismo e do apoio internacional, o sucesso da Bolsa dependerá criticamente da transparência e governança pública na aplicação dos recursos. A combinação do conhecimento científico com o saber tradicional dos povos da região é destacada como essencial para garantir a utilidade e a autonomia econômica do ativo ambiental.
O projeto de Manaus chega em um momento oportuno, alinhado ao avanço da regulamentação do mercado de carbono no Brasil. A Lei nº 15.042/2024, sancionada no final de 2024, estabeleceu as bases do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE). Embora o mercado regulado deva começar a operar plenamente apenas a partir de 2027, o novo marco legal fomenta o mercado voluntário e valida iniciativas de alta integridade como a de Manaus. A capital do Amazonas, ao buscar a verificação e monetização de seus créditos em parceria com o Banco Mundial, sinaliza que a preservação ambiental pode, de fato, prosperar e ser a fundação de um novo modelo de desenvolvimento na Amazônia.



